Tecnologia hospitalar vira peça-chave para destravar eficiência do SUS, avalia especialista Luã Santiago

Com prontuário eletrônico já presente em 87% das UBS e o SUS Digital ampliando investimentos, desafio agora é integrar dados entre atenção básica, especialistas e hospitais, hoje, essa ponte ainda é limitada.

A digitalização do Sistema Único de Saúde (SUS) entrou de vez no centro do debate nacional sobre produtividade, filas e continuidade do cuidado. Em junho de 2025, dados do Censo 2024 das Unidades Básicas de Saúde (UBS)apontaram que 94,6% das unidades têm acesso à internet e 87% utilizam prontuário eletrônico, um salto importante para padronização e rastreabilidade do atendimento. 

Apesar do avanço, a integração com outros níveis do sistema ainda é um gargalo: apenas 25,3% das UBS compartilham o prontuário com serviços especializados públicos e só 9,3% relataram integração com hospitais públicos, um dado que ajuda a explicar por que muitos pacientes ainda “recomeçam do zero” ao mudar de unidade ou nível de atenção. 

Para o especialista Luã Santiago Barros, que atua com gestão de sistemas hospitalares e logística em rede pública e tem experiência direta em ambiente hospitalar no Brasil, o país está diante de uma escolha: “A tecnologia no SUS não pode ser só ‘informatização do papel’. Ela precisa virar fluxo, e fluxo significa menos retrabalho, menos exame repetido, menos tempo perdido e mais cuidado entregue”.

Do prontuário na UBS ao dado que chega no hospital

A promessa técnica para conectar essas pontas existe: a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), definida pelo Ministério da Saúde como a plataforma oficial de interoperabilidade, criada para conectar sistemas e permitir compartilhamento seguro e padronizado de informações. A pasta afirma que a interoperabilidade reduz repetição de exames e contribui para um cuidado mais ágil, além de apoiar gestores com dados agregados para planejamento. 

Na prática, segundo Luã, o impacto acontece quando interoperabilidade vira rotina de gestão: “Quando o hospital recebe um paciente e já acessa histórico, exames anteriores e registro de alta, o ganho é clínico e operacional. Você reduz tempo de triagem, melhora decisão e evita uma cadeia de desperdícios que pesa no orçamento e na experiência do paciente”. 

No fim de 2024, o governo federal anunciou que 100% de estados e municípios aderiram ao Programa SUS Digital, com investimento de R$ 464 milhões naquele ano voltado a orientar planos de digitalização e combater desigualdades de acesso e conectividade. 

A mesma publicação registra que, nos dois anos anteriores, foram realizadas 4,6 milhões de ações de telessaúde(teleatendimento e telediagnóstico), indicando como a digitalização também tem sido usada para ampliar acesso a especialistas. 

Para Luã, a telessaúde é parte da solução mas só se estiver amarrada a dados e processos: “Telessaúde sem prontuário bem alimentado vira atendimento ‘no escuro’. O diferencial é quando a tecnologia entra como governança: dado certo, no lugar certo, com rastreabilidade e responsabilidade”.